““Se você está com medo de atacá-los, desça ao acampamento com o seu servo Pura e ouça o que estiverem dizendo. Depois disso você terá coragem para atacar”. Então ele e o seu servo Pura desceram até os postos avançados do acampamento.” Josué 7.10-11
Algumas histórias bíblicas me conduzem de volta à infância. Narrativas como Josué e os muros de Jericó, Davi e Golias, Sansão e os filisteus, eram frequentemente contadas pelos professores da escola dominical na minha igreja e empolgavam a imaginação com suas cenas de batalha, que resultavam em incríveis vitórias. A história de Gideão e os trezentos homens era uma dessas.
O texto bíblico contém traços característicos de um enredo épico que fascina qualquer criança: um pequeno grupo de combate vai à luta contra um numeroso e poderoso exército e surpreendentemente vence a batalha. Gideão, líder do pequeno agrupamento, torna-se aos olhos infantis um símbolo de heroísmo, de bravura e de coragem diante dos desafios.
Porém hoje, ao retornar à leitura dessa história, encontro outras faces de Gideão, as quais não me chamavam à atenção quando era criança. Vejo um homem cheio de questionamentos (Jz 6.13), inseguro quanto a si mesmo (Jz 6.15), carente de provas e sinais divinos para ter certeza da missão de Deus (Jz 6.17-18, 36-40). Em resumo, vejo um homem com medo. Agora a imagem do herói infantil se mescla com a identidade de um sujeito marcada pelos seus receios, dúvidas e medos.
Diante disso, questiono-me: quem é Gideão, afinal? O bravo guerreiro imaginado em minha infância ou o homem medroso que enxergo agora? Em meio às duas imagens que habitam em meu pensamento, eu mesmo posso me ver. Como Gideão, oscilo entre o medo e a coragem em tantos momentos. Por vezes, deixo-me consumir pelas dúvidas do meu coração, mas em outras – ao ler minha bíblia – encontro a resposta que traz a paz e a direção no caminho. Por vezes, permito que a insegurança domine o meu ser e fico paralisado, mas – em outras vezes – recebo um abraço apertado de um irmão na fé e me sinto novamente amado e aceito como sou pelo Pai. Por vezes, deixo de acreditar na mudança de uma situação e me conformo à realidade apresentada, mas – em outras – uma bela canção renova a minha esperança e fé no Deus do impossível.
Todos nós somos Gideão. Por causa da fragilidade de nosso ser, balançamos em meio à incerteza e à fé, à timidez e à ousadia, ao dilema e à decisão. A diferença entre o medo e a coragem reside não em nossa própria força ou determinação, mas sim em nosso Deus. Só o Pai pode transformar um coração vacilante, inseguro e medroso em um ser firme, valente e corajoso.